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Mente e Meio Ambiente: Uma inequívoca interdependência

Por Pema Dorje (Paulo Stekel)

Há, na visão budista, uma inequívoca interdependência entre as coisas, entre todos os fenômenos. Entre os seres, entre o interno e o externo… entre mente e meio ambiente. De acordo com o ponto de vista do Buda, nós chamamos de “Verdade Absoluta” em contraposição à “Verdade Relativa” percebida pela mente deludida, cegada por impurezas de percepção. Não existem fenômenos ou pensamentos que tenham uma existência própria, inerente, independente por si mesma. Isso tanto no mundo interno quanto no externo. Resumindo, nada no universo existe sozinho, por si mesmo. Sem ser através de conexões múltiplas e incontáveis com todos os demais constituintes deste mesmo universo. Este é o princípio dármico da interdependência. Algo que a ecologia profunda e as teorias integrativas modernas têm falado, em consonância com o milenar pensamento budista.

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Essa interdependência se manifesta como uma rede de manifestações. Manifestações estas que afetam umas às outras e se retroalimentam infinitamente. Os tibetanos chamam a isso de tendrel, a originação interdependente de todas as coisas. Na verdade, a palavra tibetana tendrel (rten ‘brel) é uma abreviatura do termo tenching drelwar jungwa (rten cing ‘brel bar ‘byung ba). Ele é uma tradução do termo sânscrito pratitya-samutpada. Esse termo é geralmente traduzido como “originação dependente, co-originação dependente, interdependência, relatividade, coincidência auspiciosa”, e assim por diante. Pratitya-samutpada é o nome técnico para o ensinamento budista sobre causa e efeito. Nesse ensinamento o Buda demonstrou como todos os eventos surgem através da conexão de vários fatores.

Auspiciosidade

A partir desta visão, podemos pensar em fatores positivos (ou auspiciosos). E fatores negativos (ou não-auspiciosos) relativos à interdependência de qualquer fenômeno que se manifesta.

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Fora da interpretação profundamente filosófica sobre interdependência, tendrel geralmente tem a conotação de auspiciosidade ou boa fortuna. Neste caso, pode considerar-se uma abreviatura de tashi tendrel (bkra shis rten ‘brel), “coincidência auspiciosa”. Em sânscrito: mangalam pratitya-samutpada. Esta ideia de auspiciosidade não é uma superstição, mas um aspecto da interdependência. Interdependência desta junção ou união de condições, que é percebida como uma bênção, por seu caráter positivo.

Há muitas situações em nossa vida que podem ser entendidas como auspiciosas, neste exato contexto acima. Há muitas outras que se mostram “coincidências” não auspiciosas, tanto interna quanto externamente. Um exemplo externo são as mudanças climáticas que vivenciamos em praticamente todo o planeta atualmente. Um exemplo interno é o mal estar generalizado no ambiente mental da coletividade humana. Esse mal estar pode ocorrer tanto por conta das mudanças climáticas (o fator consequência) quanto por conta da própria poluição mental das pessoas (o fator causa, podemos desconfiar).

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Mente e Meio Ambiente: Interdependência

Devemos entender que não há separação, dentro da perspectiva budista, entre o ambiente interno e o externo. Nem entre o ambiente fisico e o mental, entre o meio ambiente em que vivemos e nós mesmos. Um afeta o outro através do princípio da interdependência inequivocamente. Se esta interferência for boa, positiva, a veremos como auspiciosa. Como consequência, teremos um meio ambiente sadio, limpo, puro, e nossas mentes vão refletir este mesmo estado. A conexão entre mente e meio ambiente.

Por outro lado, se a interferência por ruim, negativa, a veremos como não auspiciosa. Como consequência, teremos um meio ambiente doente, sujo, poluído, e nossas mentes vão refletir este estado impuro e desconfortável. Agora, invertamos a argumentação! Se a interferência for auspiciosa, teremos um ambiente mental sadio, limpo, puro. Nosso meio ambiente físico – a natureza – vai refletir esta sanidade.

Se a interferência não for auspiciosa, teremos um ambiente mental doente, sujo, poluído. Nosso meio ambiente físico vai refletir esta impureza, esta poluição vindo a partir da mente. Sim, de uma perspectiva de causa, a origem do problema ambiental em nosso planeta advém da impureza da mente coletiva humana. E, esta mente impura está vivendo na Terra há milhões de anos, modificando indelevelmente o ambiente físico Esse ambiente físico acompanha a manifestação da estrutura mental da humanidade. Eis a origem de como chegamos à situação atual de desequilíbrio geral.

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A Mente Sustentável

Como resolver este desequilíbrio? Isso depende, seguindo a mesma linha de raciocínio, de ir-se conscientizando a mentalidade humana. Para que, em algum momento, atinja-se a massa crítica de uma mente coletiva auspiciosa que tenha a potencialidade de modificar o quadro ambiental caótico em que nos encontramos, substituindo-o por uma mentalidade mais natural, espontânea, criativa e não-destrutiva, ambientalmente consciente e sustentável, que não esgote os recursos naturais, que não utilize tais recursos de modo desconectado, sem perceber o quanto tudo o que fazemos interfere, no final das contas, em nossa própria sobrevivência sobre a Terra.

Os diversos movimentos baseados em sustentabilidade, ecologia profunda, permacultura, desenvolvimento de ecovilas, agricultura orgânica, bioarquitetura e similares devem ser vistos como a aurora desta mentalidade que, em algum momento, assim aspiramos, atingirá a massa crítica que colocará a humanidade diante de uma nova perspectiva de vivência inter relacionada com a natureza, de uma perspectiva de reconhecimento – pela mente humana – da relação interdependente natural de si com o ambiente físico em que vive. Quando esta visão chegar à massa crítica, teremos finalmente conectado a visão do Buda com a visão natural apresentada pelos visionários da sustentabilidade, do ambientalismo e da ecologia profunda. Avaliemos, cada um de nós, como podemos contribuir para que isso se concretize o mais brevemente possível, para o benefício de todos os seres vivos deste planeta. Sarva mangalam (Haja benefício para todos os seres)!

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Sobre o Autor

Pema Dorje (Paulo Stekel) é jornalista, escritor, tradutor, revisor e produtor musical, com vários álbuns lançados desde 2008. Stekel é um pesquisador não-acadêmico, um professor autodidata de diversos temas, entre eles Budismo, Sânscrito e línguas sagradas em geral. É um especialista na interpretação dos textos sagrados das religiões. Ainda que seja oficialmente um praticante do Budismo, pesquisa todas as tradições espirituais da humanidade, incorporando a seu trabalho o que há de mais útil nelas para o bem estar geral.

Fotos autorais pela equipe da Ecovila da Montanha.

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