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Por Pema Dorje (Paulo Stekel)

Dimensão Social

Há muito pouco tempo, pensar numa dimensão social de qualquer das grandes religiões era visto como subversivo. Séculos atrás, era motivo de ser queimado na fogueira! Contudo, em pleno Século XXI, não podemos mais fazer vistas grossas à importância do compromisso social. Não apenas pessoas, empresas e governos devem assumir diante deste mundo caótico, mas também as religiões. O Budismo não se furta a esta necessidade.

Várias ações, umas isoladas, outras nem tanto, tem sido vistas no mundo budista. Ações estas que contemplam em certa medida esta dimensão social ou “dharma social”, como podemos chamar. A proposta mais conhecida é da Ordem do InterSer, criada pelo monge zen vietnamita Thich Nhat Hanh, que cunhou o termo “Budismo Socialmente Engajado”. A Ordem do InterSer foi fundada por ele em 1966, ainda durante a Guerra do Vietnã. Tinha como um de seus objetivos iniciais dar suporte às vítimas dos horrores da guerra.

Thich Nhat Hahn

Eis a dimensão social do Dharma ensinado por este monge budista simples, mas muito realizado. Para ele, não há consciência plena se o ensinamento esquecer a vida social neste mundo globalizado. Thich Nhat Hahn, neste contexto, tem sido também um promotor da alimentação saudável, das alternativas ecológicas e da paz mundial. Isto é Dharma social!

Estátua de Buda

Outros exemplos, entre vários que poderíamos citar, são o trabalho do Lama Gangchen com seus rituais e práticas de limpeza do meio ambiente. Podemos citar também alguns lamas e instrutores ligados à organização Shamballa, criada pelo falecido Lama Chögyam Trungpa Rinpoche. Rinpoche é considerado o principal divulgador do Budismo Vajrayana no Ocidente.

Alinhamento

Na verdade, estes trabalhos evidenciam apenas a ponta de um iceberg, de uma necessidade imperiosa dentro da prática budista. Essa prática ainda não é bem aceita por todos os budistas, infelizmente. O apego demasiado a antigas tradições e ao modus operandi de cada linhagem acabam por engessar qualquer iniciativa mais moderna. Quando ela ocorre, acaba havendo uma cisão com a linhagem mais antiga. Na verdade, tem sido assim desde o momento em que o Buda entrou no Parinirvana, quando deixou este mundo, quase 2600 anos atrás.

Mas, o bom senso nos dita que, ou a religião se alinha com os tempos e as necessidades das pessoas no tempo de HOJE. Sem esse alinhamento, a própria religião não é mais viva, mas um fóssil sem muita utilidade para a vida espiritual das pessoas. Estas são reflexões budistas que tenho feito nestes vinte anos desde que tomei, pela primeira vez, o voto de Refúgio e Bodhicitta – o “tornar-se” budista.

Sem consciência plena, não há como falarmos em Budismo Vivo. Nos Quatorze Treinamentos Para Uma Consciência Plena da Ordem do InterSer, uma versão moderna (e modernizada!) dos cinquenta e oito preceitos do bodisatva estabelecidos no Sutra Brahmajala (O Sutra da Rede de Indra). Thich Nhat Hanh deixa bem claro que eles são para a consciência plena em nossas vidas reais, e não apenas teoria.

Natureza plena

Treinamentos

No primeiro treinamento, chamado “Abertura”, Thich Nhat Hahn diz que “conscientes do sofrimento causado pelo fanatismo e intolerância, nós estamos determinados a não sermos idolátricos ou confinados a qualquer doutrina, teoria ou ideologia, mesmo as budistas” (2). Em seguida, no segundo treinamento, “Desprendimento de Visões”, complementa que “a verdade é encontrada na vida, e observaremos a vida dentro e fora de nós, em cada momento, prontos para aprender no decorrer de nossas vidas”. Então, o terceiro treinamento é, consequentemente, a “Liberdade de Pensamento”.

Os demais treinamentos propõem ações como tomarmos consciência do sofrimento para podermos transformá-lo. Levarmos uma vida mais saudável e compassiva. Sem abuso de álcool, drogas, vícios eletrônicos, excesso de TV, etc, trabalharmos a nossa raiva (ela pode ser muito destrutiva, tanto física quanto espiritualmente). Vivermos alegremente no momento presente (sem apego ao passado ou expectativas no futuro). Buscarmos uma comunicação mais verdadeira com os outros e com a comunidade em geral. Praticar uma fala verdadeira e amorosa.

Mais Práticas

Protegermos e nutrirmos nossa comunidade espiritual (a sangha), termos um meio de vida correto. Ou seja, não vivermos de uma profissão que seja prejudicial aos humanos e à natureza. Reverência pela vida (não matar e não deixar que outros matem), generosidade e amor verdadeiro.

Buda e divindades

Para Thich Nhat Hanh, ao cumprirmos o propósito destes treinamentos, estamos potencializando nosso ideal bodisatva. O ideal que busca atingir o Despertar Definitivo para o benefício de todos os seres sencientes, sem exceção. Isto é mais importante que aderir a grupos, a templos, a linhagens. Mais importante que a prática de rituais antigos ou desconectados de nossos tempos, a simbolismos orientais que pouco falam a nossa mente Ocidental… Enfim, tornar a religião viva significa alinhar-se com os tempos sem perder sua essência. Lama Anagarika Govinda já deixava isso claro muitos anos atrás em suas obras, especialmente em “O Budismo Vivo e o Mundo Contemporâneo” (3).

Movimento Silencioso

O que se pode afirmar com certeza, é que um movimento silencioso, mas consistente, tem ocorrido no meio budista desde a década de 1960. No sentido de uma visão atualizada do Dharma que inclua a paz mundial, o desarmamento, a nutrição saudável. Também a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade. Ainda o combate às visões extremistas e fundamentalistas (budistas ou não). A noção de política social mais responsável e a união entre todos os povos.

Por do sol

No campo da política social, muitos líderes budistas não têm se furtado ao risco ao fazer declarações contra governos imperialistas que sufocam nações mais pobres. Dão, assim, o recado: ser budista não significa ser um cordeirinho que não reclama de nada, ou porque não percebe nada ou porque resolve calar-se. Calar-se para poder continuar praticando sua meditação alheio ao sofrimento humano. Contraditoriamente, ele promete cessar o sofrimento por seu voto de bodisatva! Não! Ser budista é ser ativo no mundo.

O Buda Shakyamuni falou para o seu tempo, a política do seu tempo, os costumes do seu tempo. Não falou para o tempo futuro porque ele ainda não existia. Um Buda fala para o presente! Então, cabe a nós, agora, entendermos o Dharma ensinado pelo Buda no contexto de NOSSO presente. Sem que isso venha a deturpar a essência do Dharma Eterno, o Dharma Original. O Buda, segundo suas próprias palavras, ensinou uma parcela mínima. Considerando nossa incapacidade de compreender o Todo.

Membro do Universo

Neste contexto, ser budista é ser um indivíduo em busca da Iluminação para sair do seu próprio sofrimento; é ser um membro do universo em busca da Iluminação. Para ajudar na cessação do sofrimento de todos os demais seres; é ser um cidadão, um membro de várias comunidades em suas diversas expressões. Em busca da Iluminação para ajudar a construir uma sociedade mais justa, igualitária, sustentável e feliz. Nenhum Dharma que se pratique será social se não contemplar esses três níveis, pois, um Dharma Social é um Dharma Engajado! Leia mais sobre o Budismo em nossa matéria Dharma Como Educação Espiritual.

(1) “Fazendo as Pazes com o Meio Ambiente”, Lama Gangchen, Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog, 1999.

(2) Citações de “Felicidade – Práticas Essenciais Para Uma Consciência Plena”, Thich Nhat Hahn, Ed. Vozes, 2013.

(3) “O Budismo Vivo e o Mundo Contemporâneo”, Lama Anagarika Govinda, Ed. Siciliano, 1994.

Sobre o autor

Paulo Stekel

Pema Dorje (Paulo Stekel) é jornalista, escritor, tradutor, revisor e produtor musical, com vários álbuns lançados desde 2008. Stekel é um pesquisador não-acadêmico, um professor autodidata de diversos temas, entre eles Budismo, Sânscrito e línguas sagradas em geral. É um especialista na interpretação dos textos sagrados das religiões. Ainda que seja oficialmente um praticante do Budismo, pesquisa todas as tradições espirituais da humanidade, incorporando a seu trabalho o que há de mais útil nelas para o bem estar geral.

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